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os trechos

 
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Doug-Douq



Joined: 28 Oct 2007

Posts: 35


PostPosted: Fri Feb 22, 2008 4:31 pm    Post subject: os trechos If a post contains some illegal issues you may abuse on it - just click Abuse and fill the form Reply with quote

Quando lemos um determinado livro pela 1ªvez, normalmente absorvemos apenas uma metade, e se for bom!! essa metade conterá ideias específicas que de tão fortes e geniais ficam em nós como hinos inesquecíveis.

Começo com este marginal,

CAUSTIQUEMOS OS POBRES

"Durante quinze dias tinha-me encerrado no meu quarto, e rodeado dos livros em voga nesse tempo (há dezasseis ou dezassete anos); quer dizer, dos livros em que se tratava da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos, em vinte e quatro horas. Tinha então digerido - ou melhor, devorado - todas as lucubrações de todos esses empreiteiros da felicidade pública -, daqueles que aconselham a todos os pobres que se façam escravos, e daqueles que persuadem de que eles são todos reis destronados. - Não causará pois surpresa que eu me encontrasse então num estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Parecia-me tão-somente que sentia, confinado no âmago do meu intelecto, o germe obscuro duma ideia superior a todas as fórmulas de boa dona de casa de que eu tinha recentemente percorrido o dicionário. Mas não era mais que a ideia duma ideia, qualquer coisa de infinitamente vago.

E saí com uma grande sede. Pois o gosto apaixonado das más leituras engendra uma proporcional necessidade de ar puro e de refrescos.

Quando ia a entrar num botequim, um mendigo estendeu-me o chapéu, com um desses olhares inolvidáveis que derrubariam os tronos, se o espírito agitasse a matéria, e se os olhos de um magnetizador fizessem amadurecer as uvas.

Ao mesmo tempo, ouvi uma voz que murmurava ao meu ouvido, uma voz que logo reconheci; era a dum Anjo bom, ou dum bom Demónio, que me acompanha para toda a parte. Visto que Sócrates tinha o seu bom Demónio, porque não terei eu o meu bom Anjo, e porque não terei eu a honra, como Sócrates, de obter a minha licença de loucura, assinada pelo subtil Létut e pelo sábio Baillarger?

Existe uma diferença entre o Demónio de Sócrates e o meu: o de Sócrates só se manifestava para defender, advertir, coibir, o meu digna-se aconselhar, sugerir, persuadir. Esse pobre Sócrates não tinha senão um Demónio proibitivo; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demónio de acção, ou Demónio de combate.

Ora a sua voz murmurava-me isto: «Só é igual a qualquer outro aquele que o prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la.»

Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco esmurrei-lhe um olho, que ficou, num segundo, do tamanho duma bola. Parti as unhas a esmurrar-lhe os dentes, e como não me sentia suficiente forte, pois nasci delicado e tenho feito pouco boxe, para derrubar rapidamente esse velho, segurei-lhe com uma das mãos o colete do fato, e com a outra agarrei-lhe o pescoço, e sacudi-lhe violentamente a cabeça de encontro à parede. Devo acrescentar que tinha antecipadamente inspeccionado os arredores com um golpe de vista, e que tinha verificado que nesse lugar afastado e deserto me encontrava, havia já algum tempo, fora do alcance de qualquer agente da polícia.

Tendo em seguida, com um pontapé dado nas costas e assaz enérgico para lhe partir as omoplatas, estendido por terra esse sexagenário enfraquecido, peguei num forte ramo de árvore que estava no chão, e bati-lhe com a energia obstinada dos cozinheiros que querem tornar tenro um bife.

De repente ---- ó milagre! ó alegria do filósofo que verifica a excelência da sua teoria! ----, vi aquela antiga carcaça voltar-se, levantar-se com energia que eu nunca teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada, e, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o malandrim decrépito atirou-se a mim, socou-me os dois olhos, partiu-me quatro dentes, e com o mesmo ramo de árvore malhou em mim como em centeio verde, ---- Com a minha medicação enérgica, tinha-lhe assim restituído o orgulho e a vida.

Então, eu fiz-lhe muitos sinais para lhe fazer compreender que considerava a discussão finda, e levantando-me com a satisfação dum sofista do Pórtico, disse-lhe: «Senhor, sois meu semelhante! Queira fazer-me honra de partilhar comigo a minha bolsa; lembre-se, se é realmente filantropo, que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmola, a teoria que eu tive a mágoa de experimentar nas suas costas.»"


C. Baudelaire em O Spleen de Paris

Todos os dias, ao atravessar a Rua dos Bacalhoeiros, passo por um vagabungo/sem abrigo, sempre o mesmo, que por ali está, sendo as paredes dos edifícios e o chão, suporte para o seu corpo há muito abandonado, e que me estende a mão fustigando-me com este olhar..
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«Só é igual a qualquer outro aquele que o prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la»
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condor



Joined: 23 Oct 2007

Posts: 9
Location: pointless town

PostPosted: Sat Feb 23, 2008 12:05 pm    Post subject: I remember If a post contains some illegal issues you may abuse on it - just click Abuse and fill the form Reply with quote

Yes... I remember this story from Baudelaire... Must have read it 10 yrs ago... And until today, whenever I pass by vagabonds or cross their eyes, I have this story in my head... and do nothing about it -
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Doug-Douq



Joined: 28 Oct 2007

Posts: 35


PostPosted: Mon Feb 25, 2008 1:33 pm    Post subject: If a post contains some illegal issues you may abuse on it - just click Abuse and fill the form Reply with quote

É como se aqueles olhos fossem detentores de uma espécie de verdade universal, difícil de ser encarada, e que me oferece um certo desconforto comprometedor. Eu que me limito a alinhar em cumplicidade no jogo implacável imposto pela sociedade, simplesmente deixando-me ir na correnteza rotineira do dia-a-dia, fazendo toda a porra que é suposto um cidadão cumpridor e honesto fazer.. Fazendo-me de cego.. Ou atravessando a rua, tornando-o invisível.

É a sensação que me causa, no entanto, não sei até que ponto esta "condição" não é uma opção nos dias de hoje!
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